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Simplice

A vida é simples

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A vida é simples

Revolucionar o ensino

Desde o tempo de Lutero, a pregação não mudou (ou mudou mesmo muito pouco). E essa é a forma principal de ensino na igreja dos dias de hoje. O resultado é que os cristãos habituaram-se a sentar-se e ouvir o "especialista" a falar das escrituras. Calados, obviamente. Estão habituados a não participar, a não analisar o que está escrito, a não expressar a sua opinião, a ver o ensino como algo essencialmente teórico.

Nem todos são assim, alguns pesquisam as escrituras, procuram saber mais, procuram praticar aquilo que aprendem. Os que o fazem, fazem-no por um impulso interior, e não porque o ambiente à sua volta os ajude a isso. Mas mesmo esses encontram vários impedimentos ao processo de aprendizagem.

Infelizmente, mudar a forma de uma pregação para pequenos grupos não é suficiente. É suficiente se as pessoas fizerem parte daqueles que pesquisam. Mas não é suficiente para os outros. Um pequeno grupo pode tornar-se uma mini-pregação, e manter os mesmos defeitos. E tudo porque é a isso que as pessoas estão habituadas.

O que é preciso fazer? É preciso revolucionar a forma de ensino de tal forma, que não seja criado espaço para ficar apático a ouvir. É necessário criar várias formas de levar as pessoas a pensar por si próprias.

Como? Essa é uma boa pergunta. Foi-me dada recentemente a oportunidade que eu estava à espera para experimentar algumas coisas, e é isto que vai ser feito: Quem participar, terá de meditar em determinados textos durante a semana que antecede. Depois, num dia marcado, juntamo-nos num sítio combinado. Aí, as pessoas passarão por uma experiência prática daquilo que meditaram durante a semana, e poderão ou não ter um papel com algumas perguntas a responder durante a experiência. No fim, teremos um espaço em que cada um partilhará o que aprendeu.

Depois disso poderemos ter reuniões em pequenos grupos, ou outras formas, que as pessoas já estarão habituadas a participar activamente. Mas deve ser algo repetitivo. E principalmente, não pode ser uma situação em que uma pessoa fica constantemente em destaque. O alvo deve ser um grupo em que todos aprendemos uns com os outros, e não em que uma pessoa se destaca como o mestre. Há um só mestre, Jesus Cristo. Somos todos seus discípulos.

Jesus pregava de chinelos e sem gravata

"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e intemperança! Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo! Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia! Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade." (Mateus 23:25-28)

Quando Jesus veio à terra, a religião tinha-se tornado num jogo de aparências, em que as pessoas importavam-se com o aspecto exterior de santidade, mas por dentro era só porcaria. O que interessa não é a forma de vestir de uma pessoa, mas o seu coração. A forma como vamos vestidos à igreja é importante?

Parecendo que não, esta pergunta depende do que entendemos por igreja. Se entendemos por igreja sempre que os discípulos de Cristo se juntam, então ir à praia com o pessoal é ser igreja, e será ridículo ir de fato e gravata numa situação dessas. Por outro lado, se entendemos por igreja uma missa/culto semanal onde vamos, aí talvez faça sentido seguir as "regras da casa", no sentido de não escandalizar quem lá vive.

Mas a igreja é uma família. Que esquisito seria eu chegar a casa do meu pai, e ele dizer: Vai lá tirar os chinelos e pôr uns sapatos decentes! Não te quero aqui assim! Seria ridículo. No entanto certamente ele ficaria triste se eu não tivesse um sentimento próximo com ele ou com os meus irmãos. E ficaria sem dúvida triste se eu colocasse condições de vestuário aos meus irmãos para estar com eles.

Isso de gravatas e de protocolos, são coisas para pessoas que não têm relacionamentos entre si.

A culpa é tua de não me perceberes

Existem diversas formas de transmitir uma mensagem, e a forma que é usada deve ser pensada de acordo com o objectivo, e com as pessoas que vão ouvir a mensagem. Existem várias formas, e elas não são erradas em si mesmas. Mas umas são melhores para determinadas situações do que outras.

Se eu vou falar para 500 pessoas sobre o que é ser igreja, provavelmente iria usar o método da pregação, com espaço para algumas perguntas no fim. Teria consciência que atingiria poucas pessoas, mas a culpa não era delas. A forma não é a melhor. Além disso, se eu estiver errado, dificilmente descobrirei isso.

Se falar para 10 pessoas, prefiro falar com elas do que para elas. Aí vamos debater. Porque eu não sou o detentor de todo o conhecimento, e não estou certo em tudo. E ao criar um debate, estarei a criar espaço para todos nos tornarmos participantes da mensagem, e todos (inclusivé eu) aprendermos mais sobre o que é ser igreja.

O problema da pregação é que é usada para demasiadas coisas. É usado para tudo, quando na realidade esse estilo deve ser usado em poucas situações, muito concretas, em que não é possível um método mais próximo de comunicação. E depois queixamo-nos de que as pessoas não querem ouvir a mensagem. Não, nós temos é que usar o método que contribui para a edificação de todos. Não podemos ser ditadores na forma como comunicamos a mensagem, e esperar que as pessoas a queiram ouvir. Quem quer ouvir um ditador? Apenas aqueles que já estão endoutrinados na mensagem do ditador. Eu não quero ser ditador na forma como transmito a mensagem.

Reinventar a pregação

A pregação precisa ser reinventada. Normalmente a coisa funciona assim: Alguém expõe um discurso a um grupo de pessoas, elas ouvem (ou não), e depois da pregação são capazes de comentar o que foi falado com uma ou duas pessoas, ou podem no fim ir ter com o pregador e comentar uma coisa ou outra. Não admira que as pessoas retenham muito pouco daquilo que foi falado. É necessário criar mais interacção.

Seria muito mais interessante se qualquer pessoa pudesse interagir com o pregador, colocando questões pertinentes ao assunto, e que se gerasse um debate à volta do que está a ser falado. Debate esse que seria produtivo para todos, inclusivé para o pregador, a não ser que o pregador pretenda protagonismo. É verdade que é difícil que a coisa funcione assim com grupos grandes, mas também ninguém disse que o ensino deveria ser feito em grupos grandes. Se a coisa funcionar assim, então o ensino estará realmente a ir de encontro às necessidades das pessoas. E como todos participam, como todos fazem parte do processo, o resultado final será algo que faz sentido para todos. Por fim, descobrir como praticar aquilo que está a ser discutido, torna-se muito mais fácil, muito mais real.

É caso para pensar porque é que continuamos a insistir num modelo que não traz benefício a ninguém, que só contribui para o individualismo e para que as pessoas se tornem amorfas.