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Simplice

A vida é simples

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A vida é simples

Intervenção Comunitária

Ontem estive a ver a minha Paula a falar sobre Intervenção Comunitária na Comunidade Cristã de Algueirão. Fiquei bastante feliz com a reacção das pessoas, deu para perceber que ficaram realmente motivadas a intervir na sua comunidade.

Penso que este tema deveria ser falado em muito mais igrejas, porque a sensação que tenho é que a intervenção social só é feita com o objectivo de ter conversões. Avaliamos os resultados com base no número de pessoas que se converteram. Por isso, somos justamente apelidados de interesseiros, fazemos o bem para que pessoas se convertam. Mas eu creio que devemos fazer o bem simplesmente por amor às pessoas e a Deus. Se no processo alguém se converter, graças a Deus, mas a intervenção social é um fim em si mesmo, e não um meio para chegar a um fim (evangelização). Intervenção social não é manipulação.

Como Jesus intervia na sociedade?

É crença comum nos dias de hoje que a igreja necessita de instituições para ser relevante para a sociedade. É interessante que a igreja pense nisso, visto que esse caminho nunca foi o adoptado por Jesus, nem pela igreja primitiva. Aliás, o momento em que a igreja passou a ter isso, com a conversão de Constantino, foi o momento em que começou a perder a sua força, a deixar de ser uma comunidade, a deturpar as palavras de Cristo com doutrinas que não lembram a ninguém.

Alguns dizem que essa é a forma dos dias de hoje. Que para sermos relevantes na sociedade de hoje, é necessário estarmos organizados em instituições. Eu concordo parcialmente. Eu não acredito que a igreja necessite de ser uma instituição. Não sinto que a igreja, como organismo, precise ser um instituição no sentido hierárquico do termo, embora dê jeito ter representatividade jurídica. Agora, para intervir socialmente, creio que devemos sem dúvida organizar instituições de solidariedade social. Mas isso será outro assunto.

A igreja deve acima de tudo intervir na sociedade através do testemunho pessoal de cada crente. De que serve fazer uma marcha para Cristo com milhares de cristãos, quando as igrejas estão em conflito entre si? De que serve fazer um grande dia do evangélico com mais outros milhares de cristãos quando o amor de Cristo não está a ser mostrado por esses mesmos cristãos? De que serve dizer que somos cristãos quando não mostramos no dia a dia o que somos?

"De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: «Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome», mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta.
Mais ainda: poderá alguém alegar sensatamente: «Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me então a tua fé sem obras, que eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé. Tu crês que há um só Deus? Fazes bem. Também o crêem os demónios, mas enchem-se de terror."
(Tiago 2:14-19)

Testemunhas de Jeová

Um pensamento que tive ontem ao cruzar-me com dois testemunhas de jeová (mais exactamente a coisa chama-se Torre de Vigia) na rua. Nunca os vi a fazer trabalho social. A igreja católica faz resmas de trabalho social, os mórmons também fazem algum, os evangélicos mais ou menos, e quase qualquer seita que me lembre faz trabalho social. Fora os satanistas, mas também isso seria contra a sua cultura, acho. Budistas, islâmicos, todos fazem trabalho social. Não me consigo lembrar de mais nenhuma religião que não o faça.

Provavelmente estou errado, se calhar até fazem algum trabalho social do qual não tenho conhecimento. Alguém conhece?

A título de piada, porquê Torre de Vigia? Tem alguma coisa a ver com o Sauron do senhor dos anéis?

Parábola dos que não se converteram

Um fariseu foi fazer obra social no meio dos sem abrigo. Como ninguém se converteu passado seis meses, acabou com o projecto, pois o seu alvo era converter pessoas, e não ajudá-las.

O samaritano foi fazer o mesmo, e continuou fazendo, pois o seu alvo era ajudar as pessoas. E com o decorrer do tempo alguns foram-se convertendo. Mas ele continuaria a obra mesmo que não houvesse convertidos.

Solidariedade telescópica

Mandar dinheiro para os pobrezinhos em África é que é bom. Sim, porque não nos custa quase nada, só uns trocos. Mas ajudar os que estão perto, isso já é pedir demais. É só desvantagens. Temos de gastar do nosso tempo, temos que os aturar, com os seus problemas, com os seus cheiros. E obviamente que isso influencia a nossa vida, e estraga tudo. Preferimos dar um pouco de dinheiro, amenizar as nossas consciências, e levar a nossa vida como se nada se estivesse a passar à nossa volta.

Mas a verdade é que há problemas à nossa volta que precisam de ajuda urgente. E se nós não ajudarmos, quem ajudará?

Solidariedade hipócrita

Hoje em dia perde-se muito a verdadeira solidariedade. O verdadeiro preocupar-se com os outros. A norma corrente é, se está tudo bem, então somos todos amigos, e damo-nos todos bem. Se alguma coisa na tua vida está a correr mal, então vai-te tratar, amanha-te, desenrasca-te, e quando estiveres bem, logo vens ter connosco. Tem de estar sempre tudo bem. E se não está, então vem a crítica e o afastamento. E as pessoas adoptam uma forma de ser hipócrita, em que dizem que está tudo bem, mas lá por dentro sentem que precisam de ajuda em n coisas. Quando isso acontece, tornamo-nos uma igreja de fachada. Muito bonito por fora, mas podre por dentro, tal como Jesus criticou os fariseus de serem.

Ajudar os outros, mas só se valer a pena

Eu acredito que os cristãos devem fazer coisas em prol da comunidade, no sentido lato, sem esperar nada em troca. Vejo o amar os outros e o fazer o bem aos outros como fins em si mesmo. Sempre que temos a oportunidade de servir as pessoas, acredito que estamos a servir a Deus.

Fico triste quando vejo igrejas (institucionais, quais haviam de ser) a pôr de parte a área social, ou a torná-la como serva do ministério de evangelismo. O que interessa, para esses, é o evangelismo, e se não se estão a converter pessoas com esse trabalho social, então não vale a pena continuar com ele. Será que se o Desafio Jovem não convertesse ninguém, mas libertasse o dobro de pessoas das drogas, deixaria de ser algo válido? Será que Deus só ama as pessoas que se irão converter? Creio que não. No entanto vejo que em muitas das nossas igrejas a área social é negligenciada, esquecida, relegada para um papel secundário.

Creio que a obra social deve ser vista como um fim em si mesmo, algo que fazemos por sermos seguidores de Cristo. E se alguém no processo vir a luz e se converter em discípulo de Cristo, tanto melhor.