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Simplice

A vida é simples

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A palavra Inferno na Bíblia

Para uma compreensão correcta do que é o Inferno, e de como chegámos à crença contemporânea, é necessário começar por uma análise do significado das palavras Gregas e Hebraicas que são traduzidas por Inferno em português:

Sheol (Hebraico) e Hades (Grego)

Sheol (ou Hades, em Grego), significa o lugar ou o estado daquele que morreu. No Antigo Testamento, assim que alguém morria, dizia-se que ia para o Sheol. De notar que isto não implicava uma crença na vida eterna (a maioria dos judeus não acreditava na vida eterna), e muito menos implicava que quem fosse para o Sheol receberia tormentos eternos.

Gehenna (Grego)

O nome de um vale ao sul de Jerusalém, onde eram feitos sacrifícios a Moloque. Os sacrifícios consistiam em colocar crianças nos braços de uma estátua oca do deus Moloque, a qual era aquecida por fogo. As crianças ficavam literalmente estorricadas. Quando os Israelitas conquistaram Israel (aos Amonitas no caso desta zona), este lugar foi destruído mas o vale ficou considerado para sempre como impuro. E era literalmente a lixeira de Jerusalém.

Tartarus (Grego)

É usada apenas uma vez (2 Pedro 2: 4), e significa literalmente "lugar profundo". É uma palavra importada do paganismo da altura, para os quais tinha um significado semelhante ao do actual Inferno, um lugar de punição para os ímpios. De notar que este versículo é referente aos demónios, e não a pessoas.

A palavra Inferno como a compreendemos hoje

Porque é que então se usa a palavra Inferno para traduzir estas palavras? Na realidade, o significado original da palavra Inferno estava muito perto da palavra Sheol. No entanto a tradição cristã influenciou, ao longo dos séculos, o significado da palavra. A imagem do Inferno de fogo era útil para os intentos da igreja medieval, que pretendia controlar as pessoas pelo terror. Poemas como os escritos por Dante e Milton ajudaram a alterar ainda mais o significado, descrevendo sucintamente esse Inferno, com o Diabo vermelho com cornos, rabo, forquilha, e tudo o resto que faz parte da noção popular do Inferno.

Se souberem inglês, leiam mais sobre o assunto aqui e aqui.

Foco no além

Se formos analisar a doutrina ensinada nas igrejas modernas, percebemos que a maioria dessa doutrina está focada no que acontece após morrermos. Não acreditam?

O papel principal da igreja é visto como o evangelismo. Ou seja, conversão dos descrentes para que em vez de irem para o Inferno quando morrerem, irem para o céu. Esta é a mensagem principal que é passada. Salvem-se das chamas do inferno, basta fazerem uma oração, e a partir daí são cristãos, e já têm bilhete para o céu.

A vida após a morte, e em particular a existência do inferno, são usadas como a razão e incentivo base para o evangelismo, para as missões, para o "portarmo-nos bem". Até são muitas vezes usadas para incentivar a frequência assídua aos cultos/missas, e ao levantamento de ofertas/dízimos.

É pena que assim seja. O foco que Jesus nos deu foi bem diferente: Amai-vos uns aos outros e a Deus acima de todas as coisas. Ide e fazei discípulos. Deve ser esse o nosso foco e a nossa missão. Em vez disso andamos a apelar ao sentido egoísta das pessoas, para que se livrem do inferno, inferno esse que muito provavelmente nem existe...

Vida Eterna: Quem entra?

Dentro do cristianismo, existem várias crenças em relação a quem receberá a vida eterna, e quem não receberá. E onde irão parar as pessoas que não a receberem. Aqui ficam as crenças principais:

Exclusivismo

Apenas os escolhidos por Deus antes da morte de Cristo, e os que decidem seguir Cristo após a morte de Cristo, experimentarão a vida eterna. Todos os outros vão para o Inferno quando morrerem, e ficarão lá eternamente.

Inclusivismo

Não só os cristãos terão a vida eterna, mas muitas outras pessoas que, não se identificando como cristãos, acabam por seguir de alguma forma os seus ensinamentos, sejam elas de que religião forem. Os outros, vão para o Inferno eternamente.

Condicionalismo

Todos somos seres mortais, destinados a deixar de existir. A Vida Eterna é algo que Deus nos dá como presente, se o seguirmos. Os outros. deixarão de existir quando morrerem.

Universalismo

Todos receberão a vida eterna, independentemente de crenças, acções, seja o que for. Até o Hitler.

Evangelismo absurdo

Um método que me contaram recentemente segue mais ou menos esta linha:

Imagine 5 segundos. Um, dois, três, quatro, cinco (estala os dedos a cada número). Imagine que tinha uma brasa acesa na sua mão durante esse tempo. Se acha isso doloroso, imagine passar a eternidade no Inferno, onde estará a arder completamente e sempre! Por isso, aceite Jesus (seja lá o que isso fôr), e irá para o Céu!

Isto é evangelismo pelo medo, e é completamente contra o que era feito pela igreja dos primeiros séculos. Mas depois houve uns cromos quaisquer na idade média que se lembraram de criar esta visão do inferno, e usar isso para fazer convertidos. E pelos vistos ainda não desapareceu.

Você está livre do Inferno. Passe na igreja e receba a sua benção

Sempre gostei do jogo do monopólio. Não sei explicar, mas sempre gostei. E por alguma razão que não percebo bem, visto que acho ser um jogo de sorte, quase sempre ganho. Depois de tantos anos de jogar ao monopólio, e ganhar, ficou bem claro para mim que a igreja não é um jogo de monopólio.

Infelizmente nem todos chegam a essa conclusão. Estou um bocado cansado de ver pregações que seguem esta linha: "Você está a caminho do Inferno. Mas eu tenho a solução para si! Faça esta oração (normalmente chamada de oração do pecador) e receberá a vida eterna! E Deus o irá abençoar de maneiras que nem imagina!"

A vida eterna é grátis mas não é barata. Jesus morreu para que nós podéssemos ter a vida eterna, e certamente que ele deseja que nós a tenhamos. E é verdade que para a obter basta uma decisão de aceitar Cristo como Senhor das nossas vidas. Isso obviamente pressupõe que acreditamos nele e que decidimos passar a viver a nossa vida de acordo com os seus mandamentos. Mas ao tomarmos essa decisão, temos de estar cientes de que nem tudo são rosas. Seguir Jesus implica um preço. Seremos gozados, maltratados, incompreendidos, e nem sempre conseguiremos fazer a sua vontade. Por outro lado sentimos a presença e a paz de Deus connosco quando mais precisamos.

A vida eterna não é uma oração que se faz para nos livrarmos do Inferno, é antes uma decisão que se toma de nos tornarmos seguidores de Jesus, e isso implica estar disposto a pagar o preço, seja ele qual for. A vida eterna vive-se dia a dia.