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Simplice

A vida é simples

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A igreja emergente, teoria e prática

Só hoje reparei que fui mencionado no blog do GBU, como uma das pessoas que luta por dilatar a igreja emergente em Portugal. Obrigado pelo elogio, mas não creio que tenha assim tanta influência, principalmente agora que me mudei para a Suíça.

O artigo em questão fez-me lembrar de uma coisa interessante sobre a igreja emergente. Muitos dos críticos e curiosos da igreja emergente procuram compreender o que se passa em termos teóricos. Mas o facto é que o movimento emergente é um conjunto de práticas cristãs, e não de nova teologia cristã. E práticas essas que nem são assim tão consistentes de comunidade para comunidade (daí o não ser correcta a denominação "igreja emergente", mas sim "movimento emergente").

Existem práticas comuns, com certeza: A rejeição da instituição, a rejeição das hierarquias religiosas, todos os cristãos activos com os seus dons, um foco missional, e um foco no reino de Deus. Isso das velinhas e dos rituais antigos são pormenores que não são nem importantes nem generalizados, mas que pelos vistos chamam a atenção dos críticos.

Quanto a teologias, na realidade não há nada de novo, há talvez uma compilação de várias teologias que se tornam relevantes para um movimento comunitário e missional em que todos os membros são parte activa, e em que a estrutura é um organismo e não uma instituição. E aí poderemos falar de Brian McLaren, ou de N.T. Wright. Mas aqui está o truque: O facto de irem buscar a teoria a essas fontes, não significa que essas pessoas façam parte do movimento. Basta lembrar, por exemplo, que N.T. Wright é um bispo anglicano, e a igreja anglicana é tudo menos emergente. Por isso, pegar na teologia deles, e deduzir que é isso que a igreja emergente defende, é algo no mínimo caricato.

O movimento emergente é uma prática cristã influenciada por um lado pelo pós-modernismo, e por outro lado pelas práticas da igreja primitiva (igreja do 1º século), que procura viver em igualdade, em comunidade, como um organismo horizontal (não hierárquico), e com um foco na implantação do reino de Deus. E é só.

Mas que coisa é essa, a igreja emergente?

Devido a um debate aceso no mukankala, e contra a própria sabedoria que me diz que deveria ficar à margem da discussão, resolvi fazer um comentário no qual baseei este artigo

A igreja emergente é um termo semelhante ao termo reforma. Não há unidade teológica, como não havia entre os diferentes movimentos reformadores protestantes. Pegar, por exemplo, em Zwingli, e generalizar para todo o movimento reformador protestante, é um erro crasso.

É verdade que existe um tema principal para o movimento emergente, como havia para a reforma protestante (a salvação pela graça). E esse tema é: A igreja como agente missiológico na terra, livre de instituição e hierarquias, simples, um organismo vivo cuja cabeça é Jesus, e onde a vida cristã é uma vida de comunidade e de compartilhamento.

Se hipotéticamente, a igreja emergente se trata de uma reforma da igreja, como a reforma protestante, então é natural que os líderes das igrejas actuais a critiquem, como o fizeram os líderes católicos no tempo de Lutero. Se criticar o que está mal e fazer algo novo é errado, então porque não voltam todos os protestantes às suas origens católicas?

No fim das contas, são sábias as palavras da bíblia: "Por isso o que vos aconselho é que deixem estes homens em paz. Se o que ensinam e fazem é só deles, em breve desaparecerão. Mas, se for obra de Deus, não poderão impedi-los, não vá acontecer vocês acabarem por lutar contra o próprio Deus." (Actos 5:38-39)

A prática leva à teoria

Um amigo meu conta uma história em que ele falava com uma pessoa que não acreditava que existiam sem abrigos numa cidade. E por muito que lhe dissessem, não acreditava, nem se interessava. Um dia levaram-no a um sítio onde alimentavam sem abrigos, e ele pôde vê-los, saber o seu nome, falar com eles, saber porque estavam nessa situação e o que era passar por isso. A partir daí não foi preciso mais dizer (teoria), pois ele tinha experimentado (prática), e essa experiência tinha-o levado a ter uma atitude completamente diferente sobre a situação.

Por isso, se queremos, por exemplo, ter uma maior preocupação pelos sem abrigo, não é com discursos que vamos lá. O primeiro passo, é ir e ajudar no que pudermos. Ao depararmos com a sua realidade, a nossa forma de pensar vai sem dúvida ser afectada.

É a prática que leva à teoria, e não a teoria que leva à prática.

Connect Portugal 2007

AdoraçãoEste fim de semana tive o prazer de estar com pessoal que pensa como eu no Connect Portugal. Pessoal que vê a igreja de Cristo com novos olhos, e que não está só num atitude crítica, tipo os velhotes dos marretas, mas que está a arriscar o pescoço, que está a fazer a igreja acontecer em Portugal, apesar de toda a oposição.

Aprendemos muita coisa por lá, sobre as quais falarei em próximos artigos (A necessidade da prática, a necessidade de sabermos quem somos, de onde vem a determinação, para que servem os dons neste novo contexto, etc). Mas mais do que isso, o que trouxe do Connect foram os relacionamentos que criámos. Pessoas com quem partilhamos as nossas feridas, que nos apoiaram, que riram connosco, que choraram connosco, que oraram por nós. Tudo o resto passará, mas esse amor e essa fé persistirão para sempre.

Também foi muito bom estar de novo com a Bárbara, e finalmente conhecer o Nuno César, a quem só conhecia virtualmente, e que foi quem organizou isto tudo.

Pode não ser muito, mas é um começo. E um começo é como uma semente. À primeira vista pode não parecer nada, mas tem nela todo o poder de se tornar numa enorme árvore.

update: Já podem ver as fotos do Connect Portugal 2007.

Analogia Culinária

A igreja pode ser vista de (pelo menos) duas formas.

A primeira forma, existente na maioria das igrejas modernas, pode ser comparada a um restaurante. Esse restaurante tem os mestres cozinheiros especializados, que estudaram durante longos anos as artes da culinária, e que supostamente sabem fazer iguarias sem igual. As pessoas que vão lá pertencem a esse restaurante, e alimentam-se exclusivamente da comida servida lá. Afinal, o cozinheiro é que sabe o que é melhor para mim. Sentem-se incapazes de eles próprios cozinharem e comerem, ou darem a comer a outros, visto que isso só deve ser feito por um especialista. Se o quiserem fazer, têm de ir tirar um curso de culinária e dedicar-se em exclusivo a essa tarefa. De vez em quando podem ir a outros restaurantes, desde que aprovados pelo cozinheiro do seu restaurante. Normalmente esses outros restaurantes têm cozinheiros que estudaram na mesma escola, e por isso, os pratos não variam muito. Por isso, quando alguém quer experimentar um prato diferente, é vista com maus olhos. Afinal de contas, nem é cozinheiro...

Existe uma outra forma, muito menos usada. Nessa outra forma, todas as pessoas cozinham. Fazem comida para si e para a sua família, convidam amigos para comer na sua casa, e vão comer à casa dos outros. Trocam receitas e experiências culinárias. Uns têm mais capacidades culinárias que outros e são reconhecidos por isso, mas todos têm algo a contribuir. E por vezes, quando lhes apetece, vão a um restaurante, comer alguma iguaria que não sabem fazer. Uns gostam mais de comida vegetariana, outros mais de comida japonesa, mas todos respeitam os gostos de cada um.

Acesso directo a Deus

"Igrejas onde o acesso directo a Deus é encorajado e que tem uma estrutura horizontal e baseada em relacionamentos pessoais, em vez de uma estrutura hierárquica, reflectem de uma forma mais contextual a vida das pessoas." (traduzido de Incarnational Approaches to the Japanese People using House Church Strategies)

Hoje, ao ler este artigo, finalmente encontrei uma frase que define exactamente aquilo que tenho estado a tentar fazer, tanto neste blog como na minha vida com Cristo na minha comunidade. Uma igreja com uma estrutura relacional e em que o acesso directo a Deus é enfatizado.

Normalmente as pessoas compreendem o que quero dizer quando falo de uma estrutura orgânica, horizontal, relacional, não hierárquica. Mesmo que não concordem comigo. Mas por outro lado ficam confusas quando falo de acesso directo a Deus, porque muitas igrejas acreditam ter isso mesmo, e até ensinam isso do púlpito. No entanto, eu acredito que estes dois temas estão intimamente relacionados.

É verdade que a existência de uma hierarquia não obriga ninguém a deixar de ter acesso directo a Deus, mas ajuda muito. Por mais que seja ensinado um acesso directo a Deus, se existe um líder acima de nós, temos tendência a relacionar-nos com Deus através dele. Leva-nos a prescindir desse direito. Leva-nos ao desleixo. Na prática isso traduz-se em pedirmos ao líder para orar por nós quando estamos numa crise, vamos sempre a ele para perguntar coisas, dependemos dele para receber ensino, etc. E ao fazermos isso permanecemos bebés espirituais, para sempre agarrados à mamadeira, incapazes de viver o cristianismo por nós mesmos.

O cristianismo deve ser vivido em comunidade, numa atitude de amor, humildade e submissão uns aos outros. Nenhum de nós é independente, mas nenhum de nós deve ser dependente de ninguém, a não ser de Deus. A vida em comunidade é uma vida de interdependência, em que todos temos algo para dar e para receber, em igualdade. Em que todos temos acesso directo a Deus.

Afinal não somos assim tão diferentes

Muitas vezes critico a igreja institucional, gostava agora de criticar a "igreja emergente", pelo menos como ela é representada por alguns de nós que abraçamos este movimento reformador.

Muitos tomaram o passo de fazer algo à parte, e isso é bom. Alguns tomaram o passo de manter o relacionamento com as igrejas institucionais, considerando-os como nossos irmão que devemos amar e respeitar, e isso ainda é melhor. Mas entristece-me que poucos tenham ido mais além, e tenham caído nos mesmos erros do passado.

A reforma da igreja não tem a haver com novos estilos de moda, ou novos estilos de música. Os nossos grupos não devem ser meros clubes de insatisfeitos com a igreja institucional. Esta reforma é acima de tudo para restaurar a supremacia de Cristo na igreja, para fazer uma igreja à sua imagem, e não à nossa.

Não é para criarmos comunidades onde nós nos sentimos bem, mas sim onde Jesus se sente bem. É para trazer o reino de Cristo à terra, e não o nosso reino. É para sermos cristãos responsáveis, que buscam a vontade de Deus de uma forma prática na sua vida, e não para pôr a responsabilidade em uns poucos líderes escolhidos, que buscam a Deus por nós.

Se falharmos nisto, estaremos apenas a fazer novas mini-instituições, em que a única diferença é o estilo de música e de moda. Estaremos a criar uma nova denominação. Estaremos a criar uma nova barreira entre Deus e nós. Estaremos a reviver o erro.

Mudança

"Se as práticas da tua igreja entram em conflito directo com com a revelação do Novo Testamento, estás disposto a ajustá-las?" (Frank Viola em Rethinking the Wineskin, p. 166)

Um dos lemas da reforma protestante era "Semper Reforma", ou seja, reforma contínua. Os líderes do movimento reformador admitiam assim que a sua reforma não era suficiente, e que era necessário continuar sempre a reformar (repensar, mudar) a igreja.

A maior oposição a essa reforma contínua é a tradição religiosa. Estamos nós dispostos a questionar toda a nossa prática cristã? De analisar à luz da Bíblia aquilo que fazemos? E ao encontrarmos conflictos entre a nossa tradição, estamos nós dispostos a mudar essa tradição? Infelizmente acho que são mais os que dizem que sim, do que os que o fazem. Mas tenho esperança.

Voltar atrás

"O cão volta ao seu vómito
e a porca, acabada de lavar,
volta a revolver-se na lama."
(2 Pedro 2:22)

Será que temos em tão pouca consideração a revelação que Deus nos tem dado, ao ponto de tão cedo voltarmos atrás? Será que não teve valor tudo o que Deus nos tem mostrado? Será que ao mínimo sinal de dificuldades desistimos de tudo?

Vamos resignar-nos a um cristianismo morno? Vamos contentar-nos com um cristianismo irrelevante para a geração dos nossos dias? Vamos ser uma igreja que é uma ténue imagem daquilo que Jesus é? Que se compromete políticamente? Que pouca diferença positiva tem do mundo lá fora?

Eu digo que não! É tempo de revolução!

O que não é a igreja emergente

Hoje o Andrew Jones colocou um artigo muito interessante no seu blog: O que eu diria às igrejas emergentes jovens nos EUA. Aborda um problema com o qual tenho tido de lidar várias vezes, a percepção errada da igreja emergente que é dada por algumas igrejas que se denominam emergentes.

"A igreja emergente, se ouvirmos os críticos mais extremos, é acerca de mudar o estilo da igreja para atrair pessoas e mantê-las felizes, ou aceitar qualquer vento de doutrina sem crítica, ou encontrar as tendências hippies mais fixes e adoptá-las num culto de domingo. É ser pósmoderno para atrais os pósmodernos. É adoptar quaisquer práticas antigas independentemente da sua origem ou efeito, é encontrar identidade no protesto contra os modelos de igrejas modernistas, iluministas ou constantinas."

Como ele mostra no artigo, isso não tem nada a haver com o que é ser igreja emergente. Um artigo que vale bem a pena ver. Uma boa crítica a algumas igrejas "emergentes" e uma boa descrição do que não é a igreja emergente.