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Simplice

A vida é simples

Simplice

A vida é simples

A papinha toda

Jesus ensinava por parábolas. O seu método de ensino consistia não em ditar verdades, mas em lançar ideias no ar. Não era dar mero conhecimento mental, mas levar as pessoas a uma busca que as aproximasse de Cristo.

Hoje em dia, influenciados pela cultura grega clássica e pelo iluminismo, nós queremos que seja ensinado tudo, timtim por timtim. O resultado é um conhecimento oco, vazio da experiência necessária a que esse conhecimento seja vivo. Sabemos muito, e praticamos pouco, ficamos muito na teoria.

Não é só o conceito teórico que é importante. O processo que nos leva ao conhecimento é tão ou mais importante que o conhecimento em si. É que o cristianismo não é saber muito sobre Deus, é sim relacionarmo-nos com Ele. E na teoria até é isso que todos defendemos, a prática é que nos trai...

De volta ao culto

Este Domingo fui a uma igreja, não interessa onde, assistir a um culto (reunião, missa). Apesar de algumas das coisas não me terem dito nada (não me identifiquei com elas), houve outras que me tocaram de alguma forma, em especial a pregação que foi feita.

Mas a pregação deixou-me algo insatisfeito. O que me apetecia era ter conversado com os outros sobre a forma como a pregação falou a mim pessoalmente, e ouvir o mesmo dos outros, e juntos vermos como podíamos aplicar o que foi dito às nossas vidas. Mas não houve espaço para isso, nem para perguntas, nem para nada a não ser ir para casa. Nem sequer houve uma indicação prática no fim da mensagem. Nada. Infelizmente soube a muito pouco, como se me mostrassem uma iguaria sem igual sem que eu a pudesse saborear.

Revolucionar o ensino

Desde o tempo de Lutero, a pregação não mudou (ou mudou mesmo muito pouco). E essa é a forma principal de ensino na igreja dos dias de hoje. O resultado é que os cristãos habituaram-se a sentar-se e ouvir o "especialista" a falar das escrituras. Calados, obviamente. Estão habituados a não participar, a não analisar o que está escrito, a não expressar a sua opinião, a ver o ensino como algo essencialmente teórico.

Nem todos são assim, alguns pesquisam as escrituras, procuram saber mais, procuram praticar aquilo que aprendem. Os que o fazem, fazem-no por um impulso interior, e não porque o ambiente à sua volta os ajude a isso. Mas mesmo esses encontram vários impedimentos ao processo de aprendizagem.

Infelizmente, mudar a forma de uma pregação para pequenos grupos não é suficiente. É suficiente se as pessoas fizerem parte daqueles que pesquisam. Mas não é suficiente para os outros. Um pequeno grupo pode tornar-se uma mini-pregação, e manter os mesmos defeitos. E tudo porque é a isso que as pessoas estão habituadas.

O que é preciso fazer? É preciso revolucionar a forma de ensino de tal forma, que não seja criado espaço para ficar apático a ouvir. É necessário criar várias formas de levar as pessoas a pensar por si próprias.

Como? Essa é uma boa pergunta. Foi-me dada recentemente a oportunidade que eu estava à espera para experimentar algumas coisas, e é isto que vai ser feito: Quem participar, terá de meditar em determinados textos durante a semana que antecede. Depois, num dia marcado, juntamo-nos num sítio combinado. Aí, as pessoas passarão por uma experiência prática daquilo que meditaram durante a semana, e poderão ou não ter um papel com algumas perguntas a responder durante a experiência. No fim, teremos um espaço em que cada um partilhará o que aprendeu.

Depois disso poderemos ter reuniões em pequenos grupos, ou outras formas, que as pessoas já estarão habituadas a participar activamente. Mas deve ser algo repetitivo. E principalmente, não pode ser uma situação em que uma pessoa fica constantemente em destaque. O alvo deve ser um grupo em que todos aprendemos uns com os outros, e não em que uma pessoa se destaca como o mestre. Há um só mestre, Jesus Cristo. Somos todos seus discípulos.

Sushi master

Recentemente, comprei um livro sobre Sushi, que começa a falar sobre o processo de aprendizagem de um mestre de Sushi. No início, só é permitido ao aprendiz lavar as panelas e o chão. Depois começam a poder lavar o arroz, e só mais tarde começam a poder cozer o arroz. Passados 5 anos de aprendizagem, começam a fazer o Sushi para take away. E só ao fim de 10 anos podem servir os clientes do restaurante.

Os orientais têm uma forma diferente de ensino, que na realidade era muito semelhante à que era usada nos tempos de Jesus. O ensino envolvia relacionamento entre o discípulo e o mestre, e o discípulo aprendia através de observação do mestre. E não há pressa para que o discípulo aprenda. Eles compreendem que aprender leva tempo, principalmente se for para aprender a coisa como deve de ser.

Ensinar assim leva mais tempo, mas os resultados são tremendos.

Falar de forma simples

O conhecimento que nós temos é fruto de um processo demorado. O conhecimento não é adquirido de um momento para o outro. Pequenas coisas que fomos aprendendo e experimentando, foram-se juntando até formar esse conhecimento. Muitas vezes num processo que dura anos.

Muitas vezes esquecemo-nos disto, e queremos passar o conhecimento que temos em pouco tempo, porque de repente tornou-se simples para nós. Esquecemo-nos de todas as pequenas coisas que fomos aprendendo que nos permitiram adquirir esse conhecimento, e queremos que os outros o atinjam sem passar por essas pequenas coisas. Isso não é possível.

Precisamos simplificar a forma como falamos, como ensinamos, como influenciamos (os 3 podem ser sinónimos). Precisamos descer ao nível do ouvinte, e também ter a humildade de reconhecer que não sabemos todas as coisas, e que ao ensinar podemos acabar aprendendo.

Institutos Bíblicos

O verdadeiro ensino académico vai além da teoria dada nas aulas. Mais importante que a teoria, que pode ser aprendida nos livros, é o contexto em que ela nos é ensinada. A oposição e a necessidade contribuem para o ensino bem sucedido.

Quando somos confrontados com outras realidades diferentes, o nosso cérebro é muito mais exercitado. Quando vejo posições e ideias que vão contra aquilo que a minha denominação defende, sou obrigado a tentar perceber porque os outros acreditam como acreditam, e sou levado a chegar uma conclusão muito mais fundamentada. Passo a saber as coisas por mim, em vez de saber apenas porque os outros assim disseram. É por isso que eu acredito que um Instituto Bíblico deve ser inter-denominacional. Por essa razão eu continuo a insistir no IBP do Tojal, quando o Seminário Batista fica muito mais perto de casa.

A necessidade é o outro factor importante. Se tentei aconselhar alguém e tive dificuldades, conseguirei extrair muito mais de uma disciplina de aconselhamento. Por um lado porque tenho interesse, por outro lado porque já tenho uma ideia de quais as dificuldades que precisam de resposta. Como conjugar isso com o ensino académico? Temo que a sociedade não esteja preparada para isso...

A culpa é tua de não me perceberes

Existem diversas formas de transmitir uma mensagem, e a forma que é usada deve ser pensada de acordo com o objectivo, e com as pessoas que vão ouvir a mensagem. Existem várias formas, e elas não são erradas em si mesmas. Mas umas são melhores para determinadas situações do que outras.

Se eu vou falar para 500 pessoas sobre o que é ser igreja, provavelmente iria usar o método da pregação, com espaço para algumas perguntas no fim. Teria consciência que atingiria poucas pessoas, mas a culpa não era delas. A forma não é a melhor. Além disso, se eu estiver errado, dificilmente descobrirei isso.

Se falar para 10 pessoas, prefiro falar com elas do que para elas. Aí vamos debater. Porque eu não sou o detentor de todo o conhecimento, e não estou certo em tudo. E ao criar um debate, estarei a criar espaço para todos nos tornarmos participantes da mensagem, e todos (inclusivé eu) aprendermos mais sobre o que é ser igreja.

O problema da pregação é que é usada para demasiadas coisas. É usado para tudo, quando na realidade esse estilo deve ser usado em poucas situações, muito concretas, em que não é possível um método mais próximo de comunicação. E depois queixamo-nos de que as pessoas não querem ouvir a mensagem. Não, nós temos é que usar o método que contribui para a edificação de todos. Não podemos ser ditadores na forma como comunicamos a mensagem, e esperar que as pessoas a queiram ouvir. Quem quer ouvir um ditador? Apenas aqueles que já estão endoutrinados na mensagem do ditador. Eu não quero ser ditador na forma como transmito a mensagem.

Reinventar a pregação

A pregação precisa ser reinventada. Normalmente a coisa funciona assim: Alguém expõe um discurso a um grupo de pessoas, elas ouvem (ou não), e depois da pregação são capazes de comentar o que foi falado com uma ou duas pessoas, ou podem no fim ir ter com o pregador e comentar uma coisa ou outra. Não admira que as pessoas retenham muito pouco daquilo que foi falado. É necessário criar mais interacção.

Seria muito mais interessante se qualquer pessoa pudesse interagir com o pregador, colocando questões pertinentes ao assunto, e que se gerasse um debate à volta do que está a ser falado. Debate esse que seria produtivo para todos, inclusivé para o pregador, a não ser que o pregador pretenda protagonismo. É verdade que é difícil que a coisa funcione assim com grupos grandes, mas também ninguém disse que o ensino deveria ser feito em grupos grandes. Se a coisa funcionar assim, então o ensino estará realmente a ir de encontro às necessidades das pessoas. E como todos participam, como todos fazem parte do processo, o resultado final será algo que faz sentido para todos. Por fim, descobrir como praticar aquilo que está a ser discutido, torna-se muito mais fácil, muito mais real.

É caso para pensar porque é que continuamos a insistir num modelo que não traz benefício a ninguém, que só contribui para o individualismo e para que as pessoas se tornem amorfas.

Se pensas por ti pensas mal, quem pensa por ti é o comité central

Parece que às vezes há medo que as pessoas pensem por si próprias. É necessário, para proteção delas, que não tenham de descobrir por si próprias a verdade de Cristo. É preferível dar-lhes um conjunto de regras que elas têm que seguir, que estão de acordo com os dogmas instituídos pela igreja-instituição. Porque se receia tanto que as pessoas vão ver à Bíblia o que ela realmente diz? Será que isso poderia colocar em risco a igreja-instituição actual? Será que isso faria com que as pessoas questionassem o que é ser igreja? E será que as suas conclusões seriam muito diferentes da igreja-instituição?

Por favor, não pensem, não vasculhem. Sabe-se lá quantos monstros estão escondidos no armário. A não ser que queiram levar o vosso cristianismo realmente a sério.

Como...

Estava a falar com a minha Paula, e ela disse-me algo que achei bastante importante. Muitas vezes, nas pregações, fala-se de muitas coisas: O quê, quando, etc. Mas raramente se fala no Como. Como posso aplicar na minha vida aquilo que está a ser ensinado? Qual é o aspecto prático da mensagem que está a ser passada?

Penso que todas as mensagens devem passar da teoria para a prática, ou então a mensagem não estará a ser passada como deve de ser. Por favor, vamos começar a reservar espaço para falar; melhor, para discutir o como praticar a mensagen de Cristo nas nossas vidas.