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Simplice

A vida é simples

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A vida é simples

Questões práticas: O vil metal

Uma das perguntas que mais me fazem, pelo menos os portugueses (deve ser da crise), é: "O Japão é caro, não é?" E eu respondo que não. As pessoas ficam muito admiradas, e se me conhecem, dizem: "Isso dizes tu porque agora estás na Suíça!"

Vamos por partes. A viagem e hotel são caros. Paguei cerca de 1500 euros nas passagens de avião para duas pessoas, e gastei outro tanto para o hotel (quartos duplos). Comprei tudo pela internet (Finnair e Agoda), e fiquei em hotéis de poucas estrelas, mas perto do centro. Todos eles tinham boas condições.

As deslocações de longo curso lá dentro também são caras. As viagens no Shinkasen rondam os 100-150 euros, mas é possível comprar um Japan Rail Pass, que custa uns 250 euros para uma semana, e permite andar nos comboios que quisermos dentro da rede JR (excepto os nozomi). Se o objectivo é visitar várias cidades, vale a pena comprar um passe (atenção que tem de ser comprado fora do Japão). Mas basta fazer uma viagem ida e volta Tokyo-Kyoto, para já valer a pena comprar o passe. Aviões não sei que não precisei, a rede de comboio é excelente.

Quanto a viagens dentre das cidades, é muito variável, mas eu acho que tende para o barato. A parte má é que existem várias linhas privadas de comboio e de metropolitano. E se o nosso percurso obrigar a mudar para linhas de 3 companhias diferentes, são 3 bilhetes que se pagam. Mas regra geral, dá para escolher percursos menos óptimos sem ter de mudar de rede de metropolitano. O preço dos bilhetes varia conforme a distância, mas é cerca de 1 euro, euro e meio para percursos dentro de Tokyo.

Existem alguns passes para todos os transportes, mas normalmente são caros, e não valem a pena. Custam cerca de 10-20 euros por dia, e são cheios de limitações. O que rende é o cartão Suica, que é um cartão que se carrega com dinheiro, e depois só temos de passar o cartão à entrada e saída das estações, que é deduzido automaticamente. Sim, porque o sistema de bilhetes é uma porcaria.

Mas bem, sobre os transportes falarei mais tarde em detalhe. Vamos voltar à vaca fria: O custo das coisas.

Achei a comida barata. Nos supermercados os preços são equivalentes aos de Portugal, sendo que o peixe é mais barato (não me estou a ver comprar um Safio de 1Kg por 5 euros em Portugal). Algumas frutas são estupidamente caras. Por exemplo, uma meloa custa 20-40 euros!!! Enfim. As bebidas nas máquinas automáticas são 1 euro, e há tantas e em tantos sítios, que não vale a pena andar com água atrás.

Restaurantes são baratos. Ou caros :) Depende do que se escolher. Eu comi em muitos restaurantes diferentes, e paguei sempre 6-10 euros por refeição. Mas claro, fui aos restaurantes de bairro, onde os japoneses vão almoçar, comer noodles e tempura. Se forem para um restaurante com vista para um jardim japonês, talvez seja melhor multiplicarem o preço por 10 :)

Museus e Monumentos são baratos, mas não são grátis. Muitos templos são grátis, mas nem todos. Os preços variam entre 2 e 5 euros (excepto o Museu Ghibli, que é cerca de 15 euros, sobre o qual falarei mais tarde).

As coisas nas lojas são baratas, e têm um IVA de 5%, que pode ser deduzido no preço para estrangeiros que tenham o passaporte à mão. Coisas electrónicas, e de fotografia são muito mais baratas. Digamos que foi mais barato comprar lá numa loja normal (se é que uma loja de fotografia com 7 andares é uma coisa normal) do que comprar online aqui na Suíça. Ou seja, deve ser metade do preço em Portugal.

Viver lá é outra conversa, não faço ideia. Mas reparei que os preços de aluguer de casas são como aqui em Genève, só que as áreas das casas são menores. Ou seja, 3 vezes mais caras que em Portugal, e com metade da área.

Em resumo, não achei o Japão caro, gastei bastante menos do que pensaria gastar.

O touro de bronze

Diria-se que eu, depois de tantos anos activo no cristianismo, de ter estudado Teologia no Instituto Bíblico Português, de ter liderado e semi-liderado vários departamentos em várias igrejas, e ter estado por dentro de quase todas as denominações evangélicas imagináveis, e de em todo esse tempo ter estudado e interagido com tantas outras, e de ter de várias formas combatido e enfrentado todo o tipo de erros teóricos e práticos, que dificilmente me deixaria surpreender por algo que os cristãos façam. Afinal de contas já vi de tudo, desde hipocrisias a extremismos, desde apatia a milagres. Mas nada do que vi me preparou para isto:



Passo a explicar o que eles estão a fazer. Estão a orar a Deus para que o sistema económico recupere. E se não bastasse isso, estão a fazê-lo junto ao touro de bronze de Wall Street, símbolo da economia americana. Eu sei, quem não é cristão não deve estar a ver a ironia disto. Talvez com algumas passagens Bíblicas, fique mais clara a minha estupefacção:

"Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro." (Mateus 6:24)

"Vendo que Moisés demorava a descer do monte, o povo reuniu-se à volta de Aarão e disse-lhe: «Vamos! Façamos para nós um deus que caminhe à nossa frente, pois a Moisés, esse homem que nos persuadiu a sair do Egipto, não sabemos o que lhe terá acontecido.» Aarão respondeu-lhes: «Tirai as argolas de ouro das orelhas das vossas mulheres, dos vossos filhos e das vossas filhas, e trazei-mas.» Eles tiraram as argolas que tinham nas orelhas e levaram-nas a Aarão. Recebeu-as das mãos deles, deitou-as num molde e fez um bezerro de metal fundido. Então exclamaram: «Israel, aqui tens o teu deus, aquele que te fez sair do Egipto.» Vendo isso, Aarão construiu um altar diante do ídolo, e disse em voz alta: «Amanhã haverá festa em honra do SENHOR.» No dia seguinte de manhã, ofereceram holocaustos e sacrifícios de comunhão. O povo sentou-se para comer e beber e depois levantou-se para se divertir.
O SENHOR disse a Moisés: «Vai, desce, porque o teu povo, aquele que tiraste do Egipto, está pervertido. Desviaram-se bem depressa do caminho que lhes prescrevi. Fizeram um bezerro de metal fundido, prostraram-se diante dele, ofereceram-lhe sacrifícios e disseram: «Israel, aqui tens o teu deus, aquele que te fez sair do Egipto.»"
(Êxodo 32:1-8)

Como é possível o povo cristão estar tão cego, que em vez de se preocuparem com os problemas de injustiça no mundo, com a fome, com a pobreza, estão antes preocupados com o sistema monetário actual? Onde está a nossa segurança? O que é que dita o nosso sistema de valores? A quem damos a nossa aliança? O sistema financeiro, ou Deus?

Visto aqui, e com origem aqui.

Provérbios do meu pai

O meu pai gosta de usar alguns provérbios em relação ao dinheiro, que têm sido uma grande inspiração para a minha forma de o usar, e para perceber a forma como os outros o gastam:

"Quem não tem dinheiro não tem vícios", e "Estica-se a perna à medida do lençol"

Ou seja, antes de se gastar, temos que fazer bem as contas e vermos se o dinheiro dá para tudo, em vez de nos endividarmos até ao tutano. Quando se tem muito dinheiro, logo se pensa em grandes carros, e PS3, máquinas fotográficas, etc.

"Quanto mais se tem mais se gasta"

Ou seja, não é aumentado os ganhos que se gasta menos, é gastando menos. Quantas pessoas conheço que vivem sempre com falta de dinheiro, e que passam a ganhar mais, e mesmo assim continuam com falta de dinheiro.

"Não contes com o ovo que está no cu da galinha"

Muitos, antes mesmo de receberem o aumento, já se endividam a pensar no que vão receber. Este mundo é demasiado volátil para tomarmos esse risco.

Padrão financeiro para a igreja cristã

"Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um." (Actos 2:44,45)

A atitude do cristão deve ser: "Tudo o que tenho pertence a Deus". Não 10%, mas 100%. Nada tenho meu, tudo pertence a Deus. Sou apenas mordomo daquilo que me é confiado. Tenho a responsabilidade perante Deus de usar tudo o que tenho (objectos, finanças, propriedades) da forma que melhor agrada a Deus. E se for preciso abdicar de algo para suprir as necessidades dos outros, é isso mesmo que devemos fazer.

O que é o Dízimo

Dizer que o dízimo é 10% do que recebemos é uma visão um bocado simplista da coisa. Temos de analisar o antigo testamento para perceber exactamente o que é o dízimo.

Havia duas formas diferentes de dar o dízimo. A cada 3 anos, nos dois primeiros o dízimo era comido (estamos a falar de alimentos) pelos próprios dizimistas nos 7 dias da festa dos tabernáculos (Deuteronómio 16:14-15). E no 3º ano o dízimo era assim:

"Quando acabares de separar o dízimo de todos os teus produtos, no terceiro ano, que é o ano do dízimo, e o tiveres dado ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, eles o comerão às portas da cidade e ficarão saciados. Dirás, então, na presença do SENHOR, teu Deus: 'Tirei da minha casa o que era consagrado para o dar ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, conforme os mandamentos que me ordenaste; não os esqueci nem os transgredi. (...)'" (Deuteronómio 26:12,13)

Ou seja, só em 1 a cada 3 anos é que se dava o dízimo. Mas não era todo para os levitas (a classe sacerdotal, ou seja, os padres, pastores, etc), uma parte era para os levitas, mas o resto era para os necessitados. Os estrangeiros, os órfãos e as viúvas.

Como é diferente a visão actual do dízimo...

Pensando sobre o Dízimo

Como acho que há muito que não crio uma boa polémica no meu blog, vou passar a falar de um assunto polémico q.b.

Uma das maiores defesas que os proponentes do dízimo para os dias de hoje têm, é a de que o dízimo foi instituído antes da lei, por Abraão. Logo o cristão está livre da lei, mas não do dízimo, porque vai além da lei.

O problema principal deste argumento, é que o dízimo não foi a única coisa instituída por Deus na lei. E o exemplo mais flagrante é a circuncisão (Génesis 17:9-14). Será que isso significa que devemos continuar a nos circuncidar? Espero bem que não, porque não estou com vontade de o fazer.

O valor dado à arte

Se a igreja (edifício) necessita de mudar a canalização, ninguém pensa em pedir a um canalizador da igreja para o fazer de graça. E muito menos pede que o mesmo canalizador além de trabalhar de graça, ainda seja ele a gastar no material que vai ser usado. Até porque pareceria um bocado estranho. Claro, se alguém quisesse fazer isso voluntáriamente, tudo bem. Mas ninguém acha correcto exigir isso de um canalizador só porque é membro da igreja. E muito menos o canalizador seria mal visto pelas outras pessoas se desempenhasse a sua função fora da igreja.

No entanto, se a pessoa for um músico, as coisas mudam de figura. O músico da igreja só pode tocar na igreja, de graça, e tem que entrar com o material. E se alguém sequer pensa em dizer que gostava de receber algum dinheiro pelo que faz, então já é visto como um desviado. Se alguém quer tocar música fora da igreja, é pior que um desviado. E se alguém não quer que uma música criada por ele seja usada na igreja sem que paguem direitos de autor, é visto como o próprio anti-cristo.

Se esse é o padrão, então que ninguém na igreja receba ordenado, que todos contribuam gratuitamente com os seus serviços, quer sejam músicos, canalizadores, pedreiros ou pastores. Ou as artes são menos dignas de salário?

Tomá lá 1 euro, mas não o gastes todo no mesmo sítio

Olhando por alto para os orçamentos das igrejas que conheço, acho que pelo menos 90% do orçamento é gasto com o edifício, despesas correntes do edifício, e com os pastores. Isso sem contar com outras que conheço que às vezes nem têm o suficiente para dar aos pastores por se terem endividado com o edifício. Ou seja, na melhor das hipóteses, sobra 10% do orçamento para trabalho social, evangelismo, e outras coisas que realmente fazem a diferença.

Se compararmos com o judaísmo, e falando só dos dízimos, a grande maioria dos dízimos ia para os pobres, as viúvas, e os estrangeiros. Aquilo que ficava para o templo, ou seja, para o edifício e sacerdotes, era de cerca de 1/3 (Um dia destes escrevo acerca do dízimo e como chego a estes valores). Na igreja do primeiro século a questão quase nem se punha. Não tinham edifícios, e muitos dos líderes tinham um trabalho para os sustentar, com excepção dos apóstolos que estavam em Jerusalém. O próprio Paulo de vez em quando trabalhava para ter sustento. No entanto, como diz a Bíblia, tinham tudo em comum, e ajudavam todos os que precisavam.

Não estou aqui a dizer que a igreja não deve ter edifícios ou líderes assalariados. Estou a dizer é que 90% do orçamento ser gasto nisso é muito.

Legalizar a igreja sem nos irem ao bolso

O processo de legalização de uma igreja é simples. Desde que se cumpra os requisitos, é preencher um formulário que custa €2,50, e entregá-lo. Quem necessitar de informações pode aconselhar-se com a AEP, que eles ajudam gratuitamente.

Estou a dizer isto porque parece que há quem se ofereça a ajudar as igrejas a se legalizarem pela módica quantia de €1000. Não vou pôr em causa a integridade da pessoa que o faz, nem vou fazer comentários de quanto essa pessoa deve pôr ao bolso, mas é só para avisar que existe uma alternativa mais barata.

Update: Graças aos comentários da Vilma, fiquei a saber que o preço é cerca de 130€.

Vinde a mim e esvaziai as vossas carteiras

Está aqui um óptimo exemplo do que não é o cristianismo. Benny Hinn, bem conhecido do meio evangélico, foi fazer uma campanha evangelística à Nigéria. Mas como não houve participantes suficientes, ao 3º dia, em pleno palco, queixou-se dos 4 milhões de dólares de prejuízo que teve, disse que a culpa era das igrejas locais, e que elas iriam pagar todas as despesas.

É isto mesmo, grande exemplo. Eu vou fazer uma campanha evangelística para meter ao bolso. Sim senhor.