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Simplice

A vida é simples

Simplice

A vida é simples

O que é a educação?

Depois de ver a entrevista da ministra da educação ontem na RTP1, onde ela diz que o que importa para os alunos passarem é o conhecimento, e que a assiduidade não é importante, sinto-me tentado a pensar que a partir de agora, segundo o governo português, o ensino resume-se apenas à passagem de conhecimento teórico. Coisas como princípios, bons costumes, moral, relacionamentos pessoais, sentido de responsabilidade, etc, não são importantes.

Vamos ver o resultado disto daqui a 10 anos.

A infelicidade do conhecimento

Às vezes dá vontade de não ter noção de determinadas coisas. É que quanto maior o conhecimento, mais alta a fasquia da felicidade.

Por exemplo, imaginemos que uma pessoa nunca tinha visto um esquentador de água. Tomava banho com água fria todos os dias, sem que isso fosse um problema. Mas por alguma razão, durante uma semana, fica na casa de alguém que tem um esquentador, e experimenta tomar banho com água quente. Mais tarde tem de voltar a tomar banho com água fria. Mas agora isso, no qual antes nem pensava, tornou-se uma razão de infelicidade.

Às vezes sinto vontade de não ter descoberto determinadas coisas. Mas pensando bem, não tive hipótese nenhuma. Está na minha natureza a busca do conhecimento. Às vezes é bom, outras vezes custa um bocado...

A dúvida e a fé

O conceito popular no cristianismo é de que a dúvida é o oposto da fé. Quem pensa assim, defende que nós devemos acreditar naquilo que os líderes dizem, sem questionar.

Acho que não. Acho que sem dúvida, não é possível ter uma fé madura. Porque a fé não pode basear-se em fábulas e mitos. A fé necessita de uma base bem mais credível. Assim, a dúvida faz parte do processo de amadurecimento da fé. Porque a dúvida leva à pesquisa, e a pesquisa a um maior conhecimento, e esse maior conhecimento leva a uma maior fé. Porque se Deus realmente existe, o aumento do conhecimento apenas poderá alimentar, aprofundar e solidificar ainda mais a nossa fé.

Era cego e agora vejo!

Quantos de nós já experimentamos isto: Era cego e agora vejo! Não estou a falar de cegueira física. Estou a falar de levarmos a vida inteira sem saber algo, e de repente faz click, e passamos a perceber.

Quando isso acontece, desejamos que outros vejam aquilo que nós passámos a ver. Mas muitas vezes o click acontece porque a nossa caminhada nos levou a isso mesmo. Podíamos ter ouvido aquilo mil vezes, mas aquilo que experimentamos levou-nos a finalmente perceber.

Não é fácil passar esse conhecimento a outros que não estejam preparados para o receber. Deus tem de levar as pessoas a passar por determinadas experiências para que realmente compreendam as coisas, e é Deus quem orienta a caminhada e cria as oportunidades. Não é possível forçar alguém a receber um conhecimento para o qual não está preparado.

Vamos ter paciência e respeitar o próximo. Afinal, aqueles que não estão preparados para receber os nossos conhecimentos, são os mesmo que têm conhecimentos que nós não estamos preparados para receber...

O conhecimento e a juventude

É interessante que quando somos jovens, pensamos que o importante é o conhecimento. Quanto mais conhecimento tivermos, mais iremos evoluir.

Apesar de o conhecimento ser algo importante, nada substitui a experiência. E à medida que vamos ficando mais velhos, vamos dando cada vez mais valor à experiência. E vamos percebendo que este mundo é um mundo de relacionamentos entre pessoas, é um mundo em que somos deparados com coisas inesperadas, e em que o nosso conhecimento é sucessivamente moldado pelas experiências que vamos tendo.

Chegamos depois a um ponto em que preferimos saborear o máximo de experiências possíveis, em vez de ler livros que transmitem o conhecimento que outros obtiveram com as suas experiências. E aí sim, seremos capazes de realmente perceber e absorver o conhecimento que nos é dado pelos livros.

O sabichão

Por definição, ninguém tem o conhecimento absoluto a não ser Deus. Por isso não há lógica nenhuma em o ensino ser um caminho de um só sentido, em que a pessoa que tem o conhecimento (o sabichão) partilha o que sabe com os alunos (que se limitam a ouvir). Quando tomamos essa atitude, o resultado é o seguinte:

Primeiro, o conhecimento global não é aumentado. Apenas parte do que o "mestre" sabe passa para os "discípulos". E o que passa depende da capacidade de ensino do mestre.

Segundo, os alunos não se habituam a pensar por si mesmos. A única fonte do seu conhecimento é o mestre, e nunca procuram ir além. Ficam-se pela mediocridade, e não há inovação.

Terceiro, o mestre passa a ser visto como o detentor de todo o conhecimento, o limite superior do conhecimento. Quando isso acontece, as pessoas esforçam-se a obter apenas um pouco menos que o conhecimento que o mestre tem, e nunca além dele. Não há inovação. E o mestre torna-se uma pessoa soberba, convencida.

Quarto, o aumentar do conhecimento está limitado à capacidade de ensino do mestre, e a inovação fica a cargo de uns quantos mestres ao debaterem entre si. O resultado é que essa inovação, se acontecer, só chegará ao resto das pessoas se os mestres tiverem a capacidade de transmitir a visão de uma forma apaixonante.

Se ao contrário disso todos tiverem a atitude de aprofundar esse conhecimento que está a ser debatido, no fim o conhecimento global (mestre + alunos) terá aumentado, e surgirá a inovação. E não será preciso aos mestres motivarem os alunos a seguir o caminho inovador, uma vez que fazendo parte do processo, todos estarão motivados a ir em frente. A forma mais fácil de motivação é tornar as pessoas parte de todo o processo. Todos aprenderão mais, e todos estarão motivados a agir nesse novo conhecimento (incluíndo o mestre).

Nota: Inspirado aqui.

Nota 2: Com Jesus é diferente, porque ele tem o conhecimento absoluto, logo pode ensinar num só sentido. Mas mesmo assim ele escolheu ensinar através do relacionamento e do debate, como podemos ver nas escrituras.

Falar de forma simples

O conhecimento que nós temos é fruto de um processo demorado. O conhecimento não é adquirido de um momento para o outro. Pequenas coisas que fomos aprendendo e experimentando, foram-se juntando até formar esse conhecimento. Muitas vezes num processo que dura anos.

Muitas vezes esquecemo-nos disto, e queremos passar o conhecimento que temos em pouco tempo, porque de repente tornou-se simples para nós. Esquecemo-nos de todas as pequenas coisas que fomos aprendendo que nos permitiram adquirir esse conhecimento, e queremos que os outros o atinjam sem passar por essas pequenas coisas. Isso não é possível.

Precisamos simplificar a forma como falamos, como ensinamos, como influenciamos (os 3 podem ser sinónimos). Precisamos descer ao nível do ouvinte, e também ter a humildade de reconhecer que não sabemos todas as coisas, e que ao ensinar podemos acabar aprendendo.

Conteúdo teológico

A igreja, em grande parte, pensa que se perde conteúdo teológico se não se tiver a missa/culto tradicional. Que não se vai às questões profundas se não houver um pregador a ensinar do púlpito, e se não se tiver todos os ministérios diferentes da igreja. Depois de um ano a experimentar uma forma mais simples de ser igreja, e depois de muitas experiências e mudanças, posso dizer que isso é totalmente falso.

Nós juntamo-nos para ver filmes, conversar, orar, estudar a Bíblia, comer, passear, jogar, brincar, e sei lá mais o quê. E em todas essas "actividades", há sempre algo de profundo que nos ensina mais acerca da nossa caminhada com Cristo. Mas que ensina de uma forma prática. Vê-se evolução real nas pessoas. Tanto no conhecimento da Palavra, como na prática da Palavra. Isto é igreja a sério.